O Brasil tem tudo para liderar a transição energética global. Uma matriz elétrica que já é 85% renovável, o maior potencial de energia solar da América do Sul, ventos constantes no litoral nordestino e rios que movem turbinas há décadas. No papel, o cenário é invejável. Na prática, a história é mais complicada.

Nos últimos dois anos, o governo federal anunciou metas ambiciosas: zerar o desmatamento até 2030, alcançar neutralidade de carbono até 2050 e expandir a capacidade de energia eólica e solar em 50% até 2028. Os discursos nas conferências climáticas internacionais foram aplaudidos. Mas, no interior do Piauí, onde os parques eólicos se multiplicam, as comunidades locais perguntam: qual é a nossa parte nessa história?

A energia que sai, mas não fica

O Nordeste brasileiro é hoje o maior produtor de energia eólica do país. O Piauí, a Bahia e o Ceará concentram a maior parte dos parques instalados. A energia gerada ali abastece grandes centros urbanos do Sul e Sudeste — e, cada vez mais, é exportada. Mas as comunidades que convivem com as torres nem sempre têm acesso à eletricidade de qualidade.

"A gente vê o vento virar energia e ir embora. A nossa conta de luz não baixou", diz Seu Antônio, 67 anos, agricultor no município de Paulistana, no Piauí, onde um parque eólico opera a menos de três quilômetros de sua casa. Ele não é contra a energia renovável — é contra a sensação de que o benefício vai para outro lugar.

Em números

O Brasil tem hoje 26 GW de capacidade eólica instalada e 26 GW de solar fotovoltaica. Juntas, essas fontes respondem por cerca de 20% da geração elétrica do país. A meta do governo é chegar a 45% até 2030.

O desafio da transmissão

Um dos maiores gargalos da transição energética brasileira não está na geração — está na transmissão. O sistema de linhas de alta tensão que conecta as regiões produtoras aos grandes centros consumidores é antigo e, em muitos trechos, opera próximo ao limite da capacidade. Novos projetos de geração solar e eólica ficam na fila de espera para se conectar à rede.

O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) estima que o Brasil precisaria investir R$ 180 bilhões em transmissão nos próximos dez anos para acomodar a expansão das renováveis. O governo federal prevê leilões de transmissão, mas o ritmo tem sido considerado insuficiente por especialistas do setor.

"Não adianta ter a melhor geração renovável do mundo se a energia não consegue chegar onde é consumida. A transmissão é o calcanhar de Aquiles da nossa transição." — Eng. Paulo Drummond, especialista em sistemas elétricos, UFRJ

O petróleo que não vai embora

Enquanto o Brasil expande as renováveis, também expande a produção de petróleo. O pré-sal, descoberto em 2007, continua sendo explorado em ritmo crescente. A Petrobras anunciou planos de aumentar a produção de barris por dia até 2030 — o que coloca o país em uma posição paradoxal: líder em renováveis e, ao mesmo tempo, um dos maiores produtores de combustíveis fósseis do mundo.

O governo defende que o petróleo ainda é necessário para financiar a transição. "Não podemos abrir mão das receitas do petróleo de um dia para o outro. Esse dinheiro é o que vai pagar a infraestrutura de renováveis", argumenta um assessor do Ministério de Minas e Energia, que pediu para não ser identificado.

Ambientalistas discordam. "Cada real investido em nova produção de petróleo é um real que não vai para a transição. E o tempo que temos para agir está acabando", diz a pesquisadora Camila Lins, do Instituto Clima e Sociedade.

As comunidades no centro da transição

Talvez o debate mais importante sobre a transição energética brasileira não seja sobre megawatts ou bilhões de reais. É sobre quem decide e quem se beneficia. Comunidades indígenas e quilombolas têm sido afetadas por projetos de energia renovável sem consulta prévia adequada — uma violação da Convenção 169 da OIT, ratificada pelo Brasil.

No litoral do Ceará, pescadores artesanais relatam que parques eólicos offshore em planejamento podem interferir com suas áreas de pesca. No Pará, comunidades ribeirinhas ainda carregam as cicatrizes de grandes hidrelétricas. A desconfiança em relação a novos projetos de energia, mesmo renováveis, é compreensível.

"Renovável não é automaticamente justo. Pode ser renovável e ainda assim prejudicar comunidades vulneráveis se não houver participação real no processo", diz a advogada Sônia Guajajara, que atua na defesa de direitos territoriais no Maranhão.

O que vem pela frente

O Brasil vai sediar a COP30 em Belém, em novembro de 2025. Será uma vitrine para o país mostrar ao mundo seus avanços na agenda climática. O governo já sinalizou que vai apresentar uma nova Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) com metas mais ambiciosas.

Mas os desafios internos não vão desaparecer com aplausos internacionais. A transição energética brasileira vai depender de investimentos em transmissão, de políticas de distribuição de benefícios para as comunidades afetadas, de regulação que garanta consulta prévia e de uma estratégia clara para reduzir a dependência do petróleo sem colapsar as finanças públicas.

É um caminho difícil. Mas o Brasil já fez coisas difíceis antes.