A taxa de desemprego no Brasil caiu para 6,8% no primeiro trimestre de 2025, o menor nível desde 2014. O número foi celebrado pelo governo como prova de que a economia está no caminho certo. Mas economistas e trabalhadores contam uma história mais nuançada — uma em que o emprego existe, mas não necessariamente paga bem ou oferece segurança.
A informalidade é o elefante na sala. Quase 39% dos trabalhadores brasileiros estão no mercado informal — sem carteira assinada, sem FGTS, sem férias remuneradas, sem acesso ao seguro-desemprego. Para eles, a queda do desemprego é uma estatística que não muda muito a vida cotidiana.
O trabalho por aplicativo
Uma parte significativa dos "empregos" criados nos últimos anos são, na prática, trabalho por plataforma — motoristas de aplicativo, entregadores, prestadores de serviços de limpeza e cuidado. Essas atividades aparecem nas estatísticas como ocupação, mas não oferecem as proteções tradicionais do emprego formal.
Marcos Oliveira, 34 anos, trabalha como entregador de aplicativo em Belo Horizonte há três anos. "Eu apareço nas estatísticas como 'ocupado'. Mas não tenho férias, não tenho 13º, não tenho plano de saúde. Se eu ficar doente por uma semana, não recebo nada." Ele ganha, em média, R$ 2.800 por mês — trabalhando dez horas por dia, seis dias por semana.
"Ter emprego não é a mesma coisa que ter trabalho decente. O Brasil melhorou nos indicadores quantitativos, mas ainda tem muito a avançar nos qualitativos." — Dra. Patrícia Vieira, pesquisadora do DIEESE
O salário que não acompanha
O rendimento médio real dos trabalhadores brasileiros ficou em R$ 1.890 no primeiro trimestre de 2025 — um aumento de 3,2% em relação ao mesmo período do ano anterior, acima da inflação. É uma melhora real, mas ainda insuficiente para muitas famílias.
O salário mínimo, reajustado para R$ 1.518 em 2025, representa o piso de remuneração para cerca de 50 milhões de trabalhadores. A política de valorização do mínimo — que prevê reajustes acima da inflação — tem sido um dos principais instrumentos de redução da desigualdade nas últimas décadas. Mas economistas debatem se o ritmo atual é sustentável sem gerar pressões inflacionárias.
A desigualdade regional persiste
O mercado de trabalho brasileiro é, na prática, vários mercados de trabalho diferentes. No Sudeste, especialmente em São Paulo, a taxa de desemprego já está abaixo de 5% — um nível considerado próximo do pleno emprego. No Nordeste, a taxa ainda supera 10% em vários estados.
Essa desigualdade regional tem raízes históricas profundas e não vai se resolver apenas com o crescimento econômico. Exige investimentos em educação, infraestrutura e desenvolvimento regional — políticas de longo prazo que costumam ser as primeiras a serem cortadas em momentos de ajuste fiscal.
O Brasil está, sem dúvida, em um momento melhor do mercado de trabalho do que estava há cinco anos. Mas "melhor" não é o mesmo que "bom". E para os milhões de trabalhadores informais, os entregadores de aplicativo e os desempregados de longa duração, a diferença entre as estatísticas e a realidade cotidiana ainda é muito grande.